Aquilo que a gente lembra
Sem o querer lembrar,
E incerto se desmembra
Como um fumo no ar,
É a música que a alma tem,
É o perfume que vem,
Vago, inútil, trazido
Por uma brisa de agrado,
Do fundo do que é esquecido,
Dos jardins do passado.
Aquilo que a gente sonha
Sem saber de sonhar,
Aquela boca risonha
Que nunca nos quis beijar,
Aquela vaga ironia
Que uns olhos tiveram um dia
Para a nossa emoção -
Tudo isso nos dá o agrado,
Das flores que flores são
Nos jardins do passado.
Não sei o que fiz da vida,
Nem o quero saber.
Se a tenho por perdida,
Sei eu o que é perder?
Mas tudo é música se há
Alma onde a alma está,
E há um vago, suave sono,
Um sonho morno de agrado,
Quando regresso, dono,
Aos jardins do passado.
[Fernando Pessoa - 02.09.1935]
A mais ou menos três dias, amanheço cantarolando os versos de Viola Enluarada. Nem sei mesmo o por quê, já que não a escutava a muito tempo. A música de Marcos e Paulo Sérgio Valle foi escrita e gravada em 1967, difícil época na história brasileira, quando muitas músicas apresentavam conteúdo social.
E, para mim, Viola Enluarada é uma das músicas brasileiras mais carregada de mensagens de esperança e luta. Além, a interpretação do Marcos Valle com o Milton Nascimento é de deixar qualquer um absorto em pensamentos, arrepiado de emoção, ao mesmo tempo indignado com tanta injustiça.
Em um universo de 14.315 mensagens por ler em minha caixa do Yahoo, coincidentemente, hoje, 14 de Junho, dia em que Che Guevara completaria 81 anos, li um newsletter enviado pelo Movimento dos Trabalhadores Sem Terra [MST] na semana passada.
O email continha um texto, transcrito mais adiante, intitulado Em defesa da educação e do Pronera. Como alguém que conhece o Programa desde o início, fiquei mesmo indignada com a leitura, principalmente pelos motivos que podem deixar 300 mil camponeses sem educação por todo o Brasil.
É mesmo óbvio: um País que gasta anualmente R$ 1,4 milhão por deputado federal, segundo dados de abril de 2008 do INESC [Instituto de Estudos SocioEconômicos], não tem interesse em educar a sua gente. Pessoas educadas para o pensamento livre, crítico e autônomo não interessam aos governantes brasileiros. Afinal, a quem os candidatos a deputados, senadores e blá blá blá poderão enganar a cada dois anos?
Em defesa da educação e do Pronera
Estamos mobilizados em todo o Brasil para defender a educação do campo, uma conquista dos movimentos sociais que lutam por Reforma Agrária no nosso país.
Nosso desafio é grande. Aprendemos com a luta que a Reforma Agrária vai além da simples conquista da terra, e passa necessariamente por uma política séria de educação. Nosso país figura entre os piores do mundo nesse sentido. Dados da Campanha Latino-Americana pelo Direito à Educação mostram que há 35 milhões de analfabetos nas nações latino-americanas. Mais de um terço destes são brasileiros. E apenas 0,2% são cubanos. Isso demonstra que investir na escolarização de um povo é vontade política, é determinação pela soberania, é vontade de construir uma história digna.
Por isso a educação é parte fundamental da luta do MST. A burguesia brasileira não admite que o conhecimento seja acessível aos pobres. E por isso enfrentamos tanto preconceito e barreiras para ter garantido o direito básico de estudar. Fazemos questão de montar escolas sempre onde montamos acampamentos. Temos um programa para erradicar o analfabetismo em nossas áreas e lutamos por políticas públicas que garantam a formação em todos os níveis.
Atualmente, 300 mil pessoas do MST estão estudando, incluindo crianças da Educação Infantil, passando pela Escola de Jovens e Adultos (EJA), cursos profissionalizantes e universidades. Mais de 50 mil pessoas já aprenderam a ler e escrever no MST.
Não reconhecemos o mesmo esforço por parte de nossos governantes. Segundo a última Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), de 2007, 14 milhões de pessoas são analfabetas no Brasil. Se somarmos a este dado os analfabetos funcionais - pessoas que sabem ler, mas têm grandes dificuldades em interpretar textos - chegaremos a 32,1 milhões de pessoas, ou 26% da população acima de 15 anos de idade.
No campo, essa realidade é ainda mais cruel. Dados do IBGE apontam que 29,8% dos adultos são analfabetos e apenas 23% dos alunos de 10 a 14 anos estão na série adequada para sua idade.
O Programa Nacional de Educação na Reforma Agrária (Pronera) é um dos poucos programas federais voltados para alterar essa realidade. O Pronera tem como missão promover aos acampados e assentados o acesso à educação formal em todos os seus níveis, desenvolvendo ações desde a alfabetização, EJA, ensino fundamental, médio, cursos profissionalizantes, superiores e de especialização.
De 1998 a 2002, o Pronera foi responsável pela formação de 122.915 assentados. De 2003 a 2008, mais 400 mil jovens e adultos tiveram acesso à escolarização. Atualmente, 17.478 pessoas estão em processo de formação, em 76 cursos pelo Brasil.
No entanto, esse direito está ameaçado. O Incra, responsável por executar o programa, decidiu suspender todos os convênios para novos cursos. Além disso, o governo cortou 62% do orçamento do Pronera, proibindo ainda o pagamento de bolsas aos professores das universidades e aos educandos. Até os cursos em andamento podem ser cortados.
Não podemos aceitar essa retirada de direitos. Contamos com o apoio da sociedade brasileira para impedir que, mais uma vez, seja negado a um ser humano o direito elementar de conhecer e interpretar o mundo.
Queremos terra, Reforma Agrária e o direito de estudar para continuar a transformar a realidade.
Por isso exigimos do governo federal:
- A recomposição do orçamento do Pronera
- A regularização do pagamento dos coordenadores e professores que trabalham nos cursos nas universidades
- A retomada da parceria para novos cursos, através de convênios e destaques orçamentários.
Movimento Sem Terra: Por Escola, Terra e Dignidade!
Coordenação Nacional do MST
Ao MST e todos que fazem o Pronera desejo sinceramente que todas as lutas sejam vencidas e que mais camponeses possam desfrutar de uma educação libertária! Para quem não conhece a música Viola Enluarada, deixo abaixo um vídeo do Youtube! Vale a pena clicar!
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