“... Não escrevemos o que queremos; escrevemos o que somos. Não há como fugir a essa fatalidade. Todo o processo da escrita literária é interior. A palavra é subjetiva, e, por isso mesmo, reveladora. O uso literário da palavra fundamenta-se na razão e na imaginação. Imaginação e memória se confundem. Quando escolhemos um tema sobre o qual escrever, já estamos imprimindo nessa escolha as nossas aptidões, preferências, nossos interesses, aspirações, nossa história, a memória de nossa família, a ancestral de nosso Ser mais amplo. A escolha das palavras a serem usadas, a maneira como dispomos essas palavras, num fluxo movido pelo pensamento, pelas emoções, também são formas de registrarmos nosso Ser. O mais surpreendente é que parafraseando Flaubert, podemos nos transformar, cada vez mais, naquilo que almejamos.
O itinerário de construção de uma obra literária é o mesmo da construção de um ser, de uma personalidade. Se não ocorre esse movimento, alguém não está criando uma obra de literatura. Enquanto a pessoa constrói uma obra, constrói a si mesma. Ou seja, somos o que escrevemos. Você pode transformar uma parte de si mesmo, ou, pelo menos, conduzir seu movimento interior num certo sentido. (...) No processo de criação da obra, escavamos, submergimos, nos avizinhamos de nossa índole profunda, quase sempre, prevista, pois a escrita desenvolve nosso instinto de suposição, de predição, da conjetura, da evocação. A escrita é premonitória. Por isso, temos tanto medo de uma folha em branco.”
Ana Miranda - escritora [texto publicado na revista Caros Amigos, em abril de 2007]
|
||||
|
|
||||
|
||||