Quando a manhã desaba sobre nós e o céu é só gastura. [Nagir Macaô]
Hoje me acordaram antes que se cumprisse o meu descanso. É por isso que esse ar pesa em minhas narinas. É por isso que já não tenho pressa. É justamente por isso que pela primeira vez na vida me encontro perplexo. Não sei que horas são, nem sei com que olhos te olharei. Sei que estamos todos a tua volta e mesmo assim persiste na manhã este rombo de ausência, este torpor.
Não precisa de cerimônia, sou eu, Saquarema. Vim daqueles dias de antigamente pra te dizer bom dia e exibir em teu louvor todos os dentes do meu sorriso, como de costume. Assim intencionado, não posso entender este vácuo, este siso e todo este enxoval.
Não tínhamos há muito concordado que partir é sempre um doloroso ofício? Que partir, de toda forma, é renunciar um estado de coisas? Entendo que queiras estar em silêncio, mas acontece que entre outras coisas perdi também a calma e posso ficar bravo contigo. Vim te falar e, no entanto, tenho medo que não me possas ouvir.
Perdoe a minha ecologia alterada. Eu sou um homem civilizado, bem sabes, mas são tantas as flechas na chuva desta manhã que somente no âmbito do poema estaremos seguros.
Há uns que cantam.
Uns que calam.
Uns que choram. Que cena diversa. Que cinema real. Que espanto. O que há para que se creia na ciranda da existência? Os rios correm e alegres correm e alegres cortam os pés dos meninos.
Onde repousará esta manhã desajustada? Não importa…
Já tudo é sono e distância, já tudo é saudade. Dança do vento nas cortinas da memória…
Ao corcel do tempo, esporas.
Que a vida desenrole seu fabuloso teatro imprevisível, seu repertório de lendas formidáveis, seu infindável poema de adeus, mas tudo isso, amigo, é função do tempo.
Eu vim somente te dizer bom dia!
[P.S.: Poema transcrito por mim, perdoem-me a pontuação!]