Poesia

 
 

SONETO LXIX

Tal vez no ser es ser sin que tú seas,
sin que vayas cortando el mediodía
como una flor azul, sin que camines
más tarde por la niebla y los ladrillos,

sin esa luz que llevas en la mano
que tal vez otros no verán dorada,
que tal vez nadie supo que crecía
como el origen rojo de la rosa,

sin que seas, en fin, sin que vinieras
brusca, incitante, a conocer mi vida,
ráfaga de rosal, trigo del viento,

y desde entonces soy porque tú eres,
y desde entonces eres, soy y somos,
y por amor seré, serás, seremos.

[Pablo Neruda]

 
 

Poesia Para A Vida!

"Vê formaram-se sobre todas as águas
Todas as nuvens.
Os ventos virão de todos os nortes.
Os dilúvios cairão sobre todos os mundos.
Tu não morrerás.
Não há nuvens que te escureçam.
Não há ventos que te desfaçam.
Não há águas que te afoguem.
Tu és a própria nuvem,
O próprio vento,
A própria chuva sem fim..."

Cecília Meireles

 
 

Viver é, entre outras coisas, descobrir!

E que mundo maravilhoso está adiante! Tantas novidades, novos cheiros, novos ares, novos climas! Pessoas novas e novas pessoas! Lugares, sensações! Poesia, música, literatura!

Aproveito e posto abaixo um poema do poeta português Eugénio de Andrade, mais recente leitura!

Respiro o teu corpo

Respiro o teu corpo:
sabe a lua-de-água
ao amanhecer,
sabe a cal molhada,
sabe a luz mordida,
sabe a brisa nua,
ao sangue dos rios,
sabe a rosa louca,
ao cair da noite
sabe a pedra amarga,
sabe à minha boca.
Eugénio de Andrade

 
 

Quando a manhã desaba sobre nós e o céu é só gastura. [Nagir Macaô]

Hoje me acordaram antes que se cumprisse o meu descanso. É por isso que esse ar pesa em minhas narinas. É por isso que já não tenho pressa. É justamente por isso que pela primeira vez na vida me encontro perplexo. Não sei que horas são, nem sei com que olhos te olharei. Sei que estamos todos a tua volta e mesmo assim persiste na manhã este rombo de ausência, este torpor.

 

Não precisa de cerimônia, sou eu, Saquarema. Vim daqueles dias de antigamente pra te dizer bom dia e exibir em teu louvor todos os dentes do meu sorriso, como de costume. Assim intencionado, não posso entender este vácuo, este siso e todo este enxoval.

 

Não tínhamos há muito concordado que partir é sempre um doloroso ofício? Que partir, de toda forma, é renunciar um estado de coisas? Entendo que queiras estar em silêncio, mas acontece que entre outras coisas perdi também a calma e posso ficar bravo contigo. Vim te falar e, no entanto, tenho medo que não me possas ouvir.

 

Perdoe a minha ecologia alterada. Eu sou um homem civilizado, bem sabes, mas são tantas as flechas na chuva desta manhã que somente no âmbito do poema estaremos seguros.

 

Há uns que cantam.

Uns que calam.

Uns que choram. Que cena diversa. Que cinema real. Que espanto. O que há para que se creia na ciranda da existência? Os rios correm e alegres correm e alegres cortam os pés dos meninos.

 

Onde repousará esta manhã desajustada? Não importa…

Já tudo é sono e distância, já tudo é saudade. Dança do vento nas cortinas da memória…

 

Ao corcel do tempo, esporas.

 

Que a vida desenrole seu fabuloso teatro imprevisível, seu repertório de lendas formidáveis, seu infindável poema de adeus, mas tudo isso, amigo, é função do tempo.

 

Eu vim somente te dizer bom dia!

 

[P.S.: Poema transcrito por mim, perdoem-me a pontuação!]

Hoje, vendo uns arquivos antigos encontrei esse poema lindíssimo do Carlos Drummond de Andrade:

Tenho razão de sentir saudade,
tenho razão de te acusar.
Houve um pacto implícito que rompeste
e sem te despedires foste embora...

Antecipaste a hora.
Teu ponteiro enlouqueceu, enlouquecendo nossas horas.
Que poderias ter feito de mais grave
do que o ato sem continuação, o ato em si,
o ato que não ousamos nem saber ousar
porque depois dele não há nada?

Tenho razão para sentir saudades de ti,
de nossa convivência em falas camaradas,
simples apertar de mãos, nem isso, voz
modulando sílabas conhecidas e banais
que eram sempre certeza e segurança.

Sim, tenho saudades.
Sim, acuso-te porque fizeste
o não previsto nas leis da amizade e da natureza
nem nos deixaste sequer o direito de indagar
porque o fizeste, porque te foste.

 
 

A espantosa realidade das coisas

É a minha descoberta de todos os dias.

Cada coisa é o que é

E é difícil explicar a alguém quanto isso me alegra,

E quanto isso me basta.

 

Basta existir para ser completo.

 

[Alberto Caeiro]

Carlos Drummond de Andrade

Até hoje perplexo
ante o que murchou
e não eram pétalas.

De como este banco
não reteve forma,
cor ou lembrança.

Nem esta árvore
balança o galho
que balançava.

Tudo foi breve
e definitivo.
Eis está gravado

não no ar, em mim,
que por sua vez
escrevo, dissipo.

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